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Quanto de afro-bibliodiversidade uma pequenina biblioteca pode acolher?

Quem não gosta de dar um presente? Gosto embalado pelo tempo. Só de pensar na pessoa, já a torna presente. No entanto, por conta do passado, é a lembrança produzida pela engenhoca do imaginário que apresenta, ou melhor, reapresenta flashes da convivência anterior e sua importância para o futuro regalo. 


Trocando gentes por ideias dentro de um livro, esse tipo de relacionamento é semelhante. As narrativas literárias ofertam, ao leitor, um monte delas, seja visualmente ou por escrito. E, no caso da ideia de África, ela sempre esteve presente para a gurizada brasileira. No tempo da vovó, na infância dos pais, do filho e a do neto, elas foram e continuam a ser reapresentadas. Andam, ao lado das idealizações de Europa, Ásia e demais lonjuras continentais sempre inspiradoras para a ficção.  E, por meio delas, entregam, sobretudo pontos de vista acerca da humanidade africana com a descendência espalhada pelo planeta. Sempre foram bem representadas? Não, né? É daí que vem a importância de, hoje, abrir janelas para os arranjos, no plural, em repertório e autoria dentro e fora do continente. Quanto de afro-bibliodiversidade uma pequenina biblioteca pode acolher?


E, se um mimo mobiliza uma lembrança, é o que os acervos vivem fazendo para a geração em contato com estes. Desde a primeira infância, junto com o folhear páginas, ocorre, na verdade, o folhear de representações. Gostar ou não, valorizá-las ou, desvalorizá-las depende do embrulho nesse passar de mãos. Um conjunto de livros atualiza representatividades em número, gênero e grau enquanto impacta as mentes. E esse relembrar associado às ascendências africanas pode, ou não, favorecer racismos. 


O momento pede reparo para o antirracismo, como atividade urgente.  O posicionamento de ser contra o racismo, não tem sido suficiente para romper com ele. O antirracismo é ação, ou seja, é estabelecer o limite à recorrentes práticas desumanas dirigidas a um certo segmento da população. O contrário é endossá-las passivamente. É o bom convívio com o racismo que faz com que ele fique solto agindo livremente. Perceber o pouco que se está fazendo individual e coletivamente é a atividade capaz de desmanchar a eficácia do não é comigo como degrau do foi sempre assim. 


A demanda também joga luzes sobre as prateleiras literárias ao alcance das diferentes infâncias no Brasil. Parte dessa consciência do educador pode estar na escola, na casa, na rua, solitária, em família, dentro de um clube, sarau coletivo, e todo o polo difusor de cultura. O adulto tem uma responsabilidade sobre essa exposição não apenas destacando o racismo, mas as valentes produções pró tempos mais equânimes em referências. Cada exemplar apresenta seu estilo lúdico múltiplo em inspirações. E, sempre haverá entre eles narrativas e narradores preciosos, potentes em transformar o futuro do convívio social. Hora de procurá-los, para a sua criança, no presente.

Foto: Renato Parada

Heloisa é doutora em antropologia social. Desde 1995 atua no campo editorial como escritora, editora e pesquisadora da área. Em especial o foco acerca das representações culturais da origem africana nos acervos disponibilizados para a infância. Entre outras obras, é autora de Histórias da Preta, enviado aos assinantes do Clube de Leitores A Taba de novembro.

Autor Ataba

Equipe A Taba Somos um grupo independente de especialistas em literatura infantil e juvenil, professores, pais, bibliotecários e contadores de histórias com um único objetivo: formar uma aldeia, um coletivo de pessoas que vive e experimenta leituras.

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