Bibliodiversidade: por acervos mais plurais

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No século XVIII, o filósofo Leibniz já abordava uma questão bem atual: você prefere ter 100 exemplares do melhor livro do mundo, ou ter 100 exemplares de títulos variados? Com essa pergunta, Jorge Luis Borges, bibliotecário e escritor argentino, abria suas palestras e já trazia no cerne da questão o conceito de Bibliodiversidade que ganhou força na década de 1990 na América Latina, nos países de língua hispânica e francesa.

No Brasil, em tempos de debate sobre taxação de livros, quando pensamos nas pequenas editoras que já enfrentam dificuldades gigantes em se manter e colocar o seu produto, o livro, nas mãos dos leitores parece que a dificuldade é ainda maior.

Se pensarmos nas livrarias e bibliotecas, o anseio em atrair leitores é tão grande que, muitas vezes, os livros são colocados nesses espaços em destaque tal qual mercadoria em display de supermercado, sendo que, muitas vezes, um best-seller do momento é usado como uma “isca” para atrair o público.

Contudo, um acervo variado é uma questão que vai além do mercado econômico, mas de defesa da pluralidade de expressões, formatos e culturas existentes, da própria democracia.

Além dos clássicos

Sabemos da importância de ler os clássicos, desde a mais tenra idade, porque são atemporais e inspiram as mais variadas expressões de arte, seja na literatura, dramaturgia ou até numa canção de ninar, mas se ninguém der a oportunidade de publicar e ler os novos escritores, como nasceriam os clássicos? Se não dermos a oportunidade a um estreante, como saborear novos saberes e descobertas?

Em São Paulo há, pelo menos em teoria, o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB), que tem em seus objetivos o desenvolvimento e apoio às ações de literatura, o incentivo a escritores, editores e livreiros, entre outros tópicos, inclusive trata da Bibliodiversidade que não se restringe apenas à variedade de projetos editorias, mas à diversidade de culturas, raças, gêneros e etnias porque também precisamos valorizar os nossos escritores, os periféricos, do interior do Brasil.

É bem verdade que, na maioria das vezes, escolhemos um livro sem notar se o autor é branco, negro ou índio. Mas já que estamos fazendo esse exercício de valorizar pontos de vistas plurais, pense em quantas autoras negras nacionais você já leu?

E quantas já foram apresentadas às crianças da sua casa? Ou que tenham negros e índios como personagens significativos? Não é à toa que surgem os movimentos “Leia Mulheres”, “Mulheres Negras na Biblio“, entre outros em busca de uma secular ausência de representatividade.

A leitura, independente do formato de seu suporte, é também um exercício de empatia, passa pelo corpo, pela alma e reverbera em nossas vivências. Assim, seja como bibliotecária, mediadora de leitura ou mãe, essa curadoria passa pelo nosso olhar, sobretudo, ao apresentar os livros às crianças e leitores em potencial.

Acervos diversos

Daí a importância de ter um acervo não necessariamente volumoso, mas sobretudo, diversificado. Desse modo todos ganham: autores por terem maior oportunidade de serem publicados e lidos, editoras por terem maior aceitação no mercado e, mais importante, ganham os leitores pela oportunidade de conhecerem um volume maior de títulos e expressões, o debate democrático terá a reprodução e a visão de mais pessoas.

No mês de novembro, meus meninos (Miguel de 6 anos e Joaquim de 2 anos) receberam da Taba, o livro “Os mil cabelos de Ritinha”, primeiro livro escrito pela carioca Paloma Monteiro, com ilustrações de Daniel Gnattali, publicado pela editora Semente Editorial que surgiu informalmente na zona rural do município de Divino de São Lourenço/ES e, envergonhada, confesso, até ler esse livro com os meus filhos não o conhecia – um presente de descoberta!

O livro é delicado, colorido e aborda de modo alegre as muitas formas de arrumar e brincar com o cabelo crespo de Ritinha, enquanto a protagonista aguarda ansiosa a chegada do irmãozinho. Ao final da leitura e da contemplação das ilustrações, o pedido “lê de novo?” demonstra o encanto dos meus meninos pela história da menina, num contexto distante da nossa realidade e ao mesmo tempo tão próximo: uma casa, a visita de vizinhos e membros da família, enquanto estamos num apartamento e em isolamento social, porém unidos por uma infância permeada pelo lúdico e, sobretudo, pelo respeito.

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Tartaruga Nara

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