Leitura

Sobre crianças, lobos, bruxas e travessias: o medo na literatura infantil

27 de fevereiro de 2019 por Denise Guilherme

O encontro ou reencontro dos adultos com a literatura infantil e juvenil pode se dar de várias formas. Para alguns, isso acontece com o ingresso dos filhos na escola e para outros, desde muito antes do nascimento deles. O fato é que há sempre um hiato chamado tempo, que separa a criança que um dia fomos daquela para quem agora apresentamos o mundo através das palavras.

Para quem se aventura a adentrar a seção infantil das livrarias e bibliotecas, encontrar um bom livro pode ser um desafio muito grande. Afinal, são muitas as obras e poucos os recursos que favorecem a aproximação entre bons livros e leitores.

O que oferecer às nossas crianças? Quais os melhores livros? Existem temas que devem ser evitados?

Para mim, todos os bons livros para crianças são bons livros para adultos. O contrário nem sempre é verdade. Assim como todo tema pode ser apresentado às crianças: a diferença está sempre na abordagem.

Crianças – prefiro sempre o plural – são seres extremamente sensíveis e inteligentes, capazes de sentir e apreender o mundo e a cultura em suas diferentes manifestações. Basta apenas que lhes sejam oferecidas condições adequadas e que estejam cercadas de adultos sensíveis e atentos, abertos à escuta generosa de todas as suas expressões.

Creio que nosso papel como educadores e responsáveis pelo cuidado com os pequenos seja o de estarmos perto para apoiar e acompanhar os pequenos em suas descobertas e travessias, já que não podemos experimentá-las em seu lugar e muito menos privá-los dos riscos e também das alegrias de estarmos vivos.

É comum associarmos a imagem da infância ao ideal de pureza, segurança, satisfação e alegrias constantes. Mas, se apelarmos à nossa memória, saberemos que essa ideia não corresponde à realidade.

Desde que nascemos, lidamos com todas as emoções básicas da experiência humana: medo, angústia, alegria, raiva…E as palavras podem ser um recurso fundamental para nomeá-las e construir novas representações para as mesmas. Por isso os livros e as histórias são um precioso tesouro a ser oferecido a todas as crianças.

Mas, e os livros que apresentam personagens malvados, figuras que causam medo ou situações que geram angústias? Mesmo eles podem ser bons para os pequenos? Lemos ou escondemos essas obras?

Vivemos em uma sociedade que valoriza a perfeição, a juventude e alegria eternas.

Nesse cenário, tudo o que é mal, feio, monstruoso deve ficar escondido.

O que fazer então como nossa própria feiúra? Com os comportamentos e desejos que não podemos expressar?

Na famosa história de Harry Potter, todos os bruxos e bruxas não ousam pronunciar o nome do grande vilão Voldemort, referindo-se a ele pela alcunha de “Você-sabe-quem”. Nos primeiros livros da saga, inclusive, o malvado personagem não tem forma, é volátil, sendo muito difícil vencê-lo.

Curiosamente, é o herói da história quem – desde cedo – aprende a nomeá-lo. E à medida em que outros personagens também se atrevem a fazê-lo, Voldermort toma forma, sendo possível derrotá-lo no final da saga.

Gosto muito da metáfora construída pela autora. O mal, que se revela dentro e fora de nós, precisa ser nomeado e conhecido. É esse encontro que protege a inocência. Só em contato nossos próprios lobos e bruxas, nossos próprios medos é que podemos reconhecê-los nos outros e em nós mesmos para, então, decidirmos enfrentá-los.

Quem tem contato com as crianças, sabe que muitas delas possuem um interesse grande por personagens que representam o lado mais sombrio da experiência humana, como os lobos e as bruxas, por exemplo. Mesmo temendo essas figuras, é comum que peçam repetidamente a leitura de suas histórias.

O que esses personagens possuem de tão fascinante? Porque algumas crianças desejam tanto esse encontro?

Porque ele é fundamental para o desenvolvimento saudável do ser humano. Todos temos nossas sombras. A natureza humana é composta por aspectos amorosos e também assustadores. E quanto mais estivermos de frente para nossas contradições, mais saudáveis seremos. E as crianças, curiosas por natureza, desejam ter acesso também a experiências que sabem ser difíceis, mas que precisam ser enfrentadas. Elas estão construindo seu repertório de sentimentos e aprendendo a expressar suas emoções. Para isso, é fundamental contar com a segurança de um adulto que possa acolhê-las e mediar o encontro com suas própria sombra. Isso não significa abandoná-las na floresta escura para que enfrentem sozinhas seus lobos. Mas, estar a seu lado – em um primeiro momento – para que depois, quando adultas, possam ter a coragem e presença interna para realizarem suas próprias travessias.

Um bom exemplo disso é a história de João e Maria – temida por muitos adultos por apresentar um dos maiores medos que todos possuímos: o de sermos abandonados por aqueles que mais amamos. Sem dúvida, uma situação que desejamos evitar, mas a qual inevitavelmente estaremos expostos, afinal, todos os relacionamentos estão fadados à separação, seja por uma decisão intencional – como no caso dos pais dos protagonistas da história – ou contra a nossa vontade, como no caso da morte.

Creio que podemos ter mais recursos para lidar com essa e outras faltas se já tivermos experimentado parte delas por meio da Arte. E essa é, para mim, é uma das grandes qualidades da literatura. A capacidade de nos tornar capazes de viver e sentir uma diversidade de experiências muito maior do que a nossa própria vida pode nos oferecer.

Talvez por isso algumas crianças peçam tanto para que a história de João e Maria seja lida repetidamente. Ou quem sabe o desejo de ouvir inúmeras vezes este conto seja porque ele trata dos desejos que nos movem e, muitas vezes, nos expõem a tantos perigos. Ou ainda, porque sua leitura – assim como a de tantas outras histórias – nos dá a certeza de que só mesmo o amor é forte o suficiente para nos ajudar a atravessar mesmo as florestas mais escuras.

  • A imagem que ilustra o post é de Beatriz Martin Vidal para o livro Caperucita Roja – ainda sem edição no Brasil

Texto originalmente publicado no blog do Espaço da Vila, em abril de 2018: https://espacodavila.wordpress.com/2018/04/

Denise Guilherme Denise Guilherme é Mestre em Educação, formadora de professores e consultora na área de projetos de leitura. Desde cedo, apaixonada por palavras ditas e escritas. Descobriu nos livros um caminho para entender a si mesma e aos outros. E ficou tão encantada com o que viu que decidiu compartilhar com o mundo.

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3 comentários

Edson

1 de março de 2019

Parabéns pela matéria. Muito elucidativa. Sou autor teatral e tento passar isso nas minhas histórias.

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Elaine

2 de março de 2019

Penso da mesma forma que a autora, porém, ela conseguiu traduzir em palavras.Excelente texto!!!!Obrigada.

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Elaine

2 de março de 2019

Penso como a autora, porêm, ela conseguiu traduzir em palavras.Excelente texto!!!

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