A potência da leitura compartilhada

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Há quem afirme que a leitura é um ato solitário, silencioso e requer muita concentração, apesar da companhia das palavras, dos personagens ganhando vida por meio dos ideais de autores, ilustradores e todo valor simbólico carregado nas páginas de uma obra literária, que muitas vezes dialogam com outros livros e vivências dos leitores.

E como afirma a sabedoria popular “uma história puxa a outra”, vale recordar em O Nome da Rosa [1], um clássico de Umberto Eco que fez sucesso no cinema em 1986, desde os tempos medievais, a leitura é vista como um trabalho silencioso, já que os monges copistas, muitos analfabetos, empenhavam-se nesse “fardo”.

Assim a leitura ainda é vista como uma função utilitária ou como uma tarefa com objetivo específico para muitos, mesmo que seja a brincadeira de contabilizar quantos livros foram lidos num determinado período.

Avançando bastante no tempo, com a democratização da leitura escolar, há o receio da resposta errada, da crítica, da intolerância, talvez não haja nem tempo de refletir, pois há um professor ou mediador que avança com pressa e assim uma janela de possibilidades de diálogo se fecha, pois cada livro é um espaço para conversarmos sobre o mundo, sobre nós mesmos e sobre os outros. Mesmo aqueles que são diferentes de nós. 

Cada livro é um espaço para conversarmos sobre o mundo, sobre nós mesmos e sobre os outros.

Numa roda de leitura compartilhada cada vez mais a interpretação pode ser um ato coletivo e um exercício democrático de construção de saberes, repertórios e gerador de empatia, pois a visão do outro me ajuda a ver o que não tinha visto antes, a ruminar e até ampliar a visão ou compreender outro ponto de vista, ainda que uma determinada experiência seja totalmente desconhecida.

Os entendimentos passam também pela mediação, eis a importância desse sujeito que pode estar em casa, na escola, na biblioteca ou nos meios virtuais. O mediador conduz o olhar do leitor como uma lanterna que se acende e se apaga em blocos de textos, sem abdicar do seu ponto de vista, mas a projetar reflexões.

Na relação com muitos mestres, vivências e leituras, construímos nosso próprio discurso e isso se dá também na forma como escolhemos nosso repertório. Uma biblioteca ou um único livro só fará sentido a partir do momento em que o leitor abre e o lê, do contrário é um fetiche decorativo, mas essa noção de sentido e percepção pode ser ampliada se for dialogada.

Talvez esteja aí o sucesso de muitos Clubes e Rodas de Leitura compartilhada: a potência da palavra escrita e da oralidade à compreensão de mundos, a mostrar afinidades e possibilidades, ainda que aconteçam virtualmente.

Segunda-feira, dia 22 de março, começam as rodas de leituras para educadores aqui na Taba. Se eu fosse você, não perderia!

E para encerrar um discurso que não tem fim, assim como a construção de um leitor, trago um pequeno conto, já bastante conhecido:

A Função da Arte

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Pai, me ensina a olhar!

Galeano, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2000


[1] ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.

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