Ler serve pra quê? – III

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Um ensaio sobre a utilidade da leitura, em três partes

Na primeira e segunda partes deste texto, descrevi a repercussão da polêmica plantada pelo youtuber Felipe Neto na Imprensa dita especializada sobre a necessidade ou não de se obrigar jovens a lerem clássicos literários.

Ao mesmo tempo em que pintava abstrações e concretudes acerca do ato e do hábito de ler publicadas nos jornais num período de quase dois meses, entre 16 de dezembro de 2020 e 4 de fevereiro de 2021. Despedi-me com a questão: o que saltava aos olhos diante daquele cenário?

Para mim, a opinião que chega é a de Felipe Neto, inescapavelmente. Não só pelos milhões de seguidores, mas pela abordagem pertinente que fez. O argumento dele é forte demais: o que conseguimos até agora enfiando obras clássicas goela abaixo das crianças?

Ninguém oferece solução diferente da velha, simples e arbitrária recomendação de que clássicos são importantes, que por isso são chamados assim, que Italo Calvino disse isso e aquilo, e que – concordemos – tal recomendação nunca fez mal a ninguém nem sequer gerou uma febrezinha.

O buraco, apenas fraca e difusamente iluminado por essas vozes, é mais embaixo e responde pelo nome de educador. Quem divide este papel são pais e professores, sobretudo.

Segundo a Retratos da Leitura 2019, a influência na promoção de leitura vem de (1º) professora ou professor, (2º) mãe e (3º) pai, nesta ordem, ocupando as três primeiras posições, à frente de outros parentes, líderes religiosos, companheiros, influenciadores digitais (booktubers) e bibliotecários.

Há que se perguntar que leitor estamos formando. Otimista, Tzvetan Todorov diz que a literatura pode muito. Em tradução de Caio Meira, em A literatura em perigo (Difel, 2008) o linguista búlgaro afirma que ela “pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver”.

Para quem acha isso um lugar-comum de autoajuda, Todorov esclarece:

“Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. […] Como a filosofia e as ciências humanas, a literatura é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos. A realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente (mas, ao mesmo tempo, nada é assim tão complexo), a experiência humana. Nesse sentido, pode-se dizer que Dante ou Cervantes nos ensinam tanto sobre a condição humana quanto os maiores sociólogos e psicólogos e que não há incompatibilidade entre o primeiro saber e o segundo”.

Dizem que a palavra é a arma mais poderosa que existe, por isso instrumento disputadíssimo no jogo do poder, seja a partida democrática ou não. Mas… de que palavra estamos falando? A lida ou a falada?

E mais: se é arma, artefato de guerra, pode ser usada tanto para atacar quanto para defender. O único consenso diz respeito à palavra lida, a independência que patrocina, e que, por isso e por vezes, se rebela contra ela própria: só se desdenha de ideias que se leem por justamente se saber ler (o segundo paradoxo?).

E as ideias escritas chegam aos olhos – palavra lida – em muito maior número do que as faladas chegam aos ouvidos. Faz parte da mágica da escrita: dizer sem estar presente, dizer mesmo com língua e mãos mortas entregues aos vermes, e, ao gosto do leitor, repetir-se inúmeras vezes.

Hoje, quem precisa renovar a carteira de motorista no Brasil, seja por que motivo for, tem que provar que sabe escrever (o que pressupõe saber ler, sobretudo as placas!). Então, no balcão do Detran, em poucos segundos, o atendente dita um texto, na verdade uma frase, e o motorista deve escrevê-la corretamente e devolver o papelzinho se quiser reaver o direito de dirigir.

Dia 7 de dezembro de 2020, começo de tarde, um senhor que aparentava 60 anos, ou 50 e poucos bem vividos, ouviu a frase, pediu que se repetisse, e tentou escrever “O trânsito é formado por todos nós e é responsabilidade de todos nós”, mas não conseguiu. Foi aconselhado pela atendente que “treinasse” em casa e remarcasse o atendimento.

Perplexo, testemunhei a cena e fiquei pensando no que mais é responsabilidade de todos nós (pelo menos nós que lemos e escrevemos), e em quantos nós ainda precisamos desatar. É a necessária Eliane Brum quem lembra um ditado africano na coluna do dia 4 de fevereiro (O que significa cuidar de um filho numa pandemia? ), no El País: para educar uma criança, é preciso toda uma aldeia. Eu acrescento: e essa criança só se educa, só se torna autônoma se antes aprender a ler.

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Tartaruga Nara

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