Ler serve pra quê? – I

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Um ensaio sobre a utilidade da leitura, em três partes

E daí que o brasileiro não sabe ler, não aprende a ler direito e que os que sabem não leem? Começar este artigo com a pergunta “para que serve a leitura afinal?” não só é clichê como também aplaca a angústia de iniciados.

O iniciado de que falo é membro do reduzido plantel de leitores vorazes e eternamente indignados com o fato de outras pessoas – em especial jovens – não lerem tanto quanto eles ou de não lerem.

O que fazer? Como fazer? Existe fórmula mágica? Abrir a cabeça com um machado? – de preferência com o de Assis, como sugeria conhecida propaganda do Salão Carioca do Livro…

Alberto Manguel, no seu delicioso Uma história da leitura (Cia. das Letras, 1997), decreta que ela é “a mais civilizada das paixões”, cuja biografia é “uma celebração da alegria e da liberdade”. O capítulo ‘O aprendizado da leitura’ discorre acerca da origem desse processo em massa na Idade Média, e do status que saber ler dava aos letrados.

Demorou-se, porém, a se perceber a fruição como o grande resultado da simples decodificação do idioma escrito, como fator de liberdade e de civilidade; aprendia-se a ler, antes de tudo, para se instruir. Ou seja, a ideia de se aprender a ler apenas com objetivos utilitaristas não é nada nova.

Quando a ficha caiu, contudo, que leitura era sinônimo de independência, um rito de passagem, aí é que se rechaçou o seu aprendizado. As mulheres que o digam! E se supervalorizou os aprendizes. Poder-se-ia dizer que a ideia da meia-entrada e da cela especial para quem tem curso superior nasceu ali…

Por sorte, os alunos do medievo, segundo Manguel, circunscreveram o ato de ler ao mundo de cada um, à experiência íntima, ao afirmarem sobre cada texto a autoridade que tinham como leitores individuais e contra todo arbítrio.

Ainda assim, essa noção não atingiu a todos, não respingou em todos os corações e em todas as mentes. O primeiro grande paradoxo da leitura: quem aprisiona lê, e lê quem se liberta.

É por essas e outras que o assunto não sai de pauta, e pauta colunas, reportagens, ensaios, crônicas. Porém, com quem falamos? A quem nos dirigimos? E com que finalidade para além das motivações iluministas que teimam em nortear esta nossa vidinha? Ilustro o que digo com a virada de 2020 para 2021: começa numa coluna do Estadão e termina noutra do El País.

Em 16 de dezembro, o professor Leandro Karnal, depois de indicar nada menos do que 30 títulos em texto publicado n’O Estado de S.Paulo, diz que “ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia”, que um bom texto aumenta o mundo do leitor e o faz sair do senso comum, que “embeber-se em histórias é viver de forma ampla” e que, por fim, “ler é esperança, sempre”. Do que Karnal fala e para quem fala? A leitores contumazes ou àqueles que toparam sem querer com sua coluna?

A professora Claudia Costin, especialista em Educação, em seu espaço na Folha de S.Paulo do dia 17 de dezembro, destaca do último Pisa, de 2018:

Metade dos estudantes brasileiros não atingiram sequer o nível mínimo de proficiência em leitura que se esperava deles, e que por isso apenas 2% souberam separar o que é fato do que é opinião.

Defende, portanto, a urgência da media literacy (alfabetização midiática) nas escolas etc. etc. etc. Com quem ela fala? Com professores indignados? Com diretores exaustos e indiferentes? Com o leitor médio do jornal que acha bonito tudo aquilo?

Vinte e cinco dias depois da primeira coluna dele citada aqui, Karnal questiona, em 10 de janeiro, se adolescentes se chocariam com a morte de Bertoleza tal como ele se chocou há algumas décadas; aproveita, com isso, para tentar responder à questão: adolescentes deveriam ler O cortiço e outras obras do Naturalismo e do Realismo brasileiros? (Em tempo! Já falei sobre isso aqui no blog)

Dariam conta de se impressionar com aquela crueza quando estão diante de eventos como o assassinato de mais uma criança negra, de cinco anos, morta logo depois de sair da cama por disparos da Polícia Militar, no Estado do Rio de Janeiro (Menina morre após ser baleada na porta de casa em Niterói, RJ, portal G1, 2 de fevereiro de 2021)?

Aí, treze dias depois, em 23 de janeiro, o youtuber Felipe Neto manda reto no Twitter: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”.

A quem o próspero e jovem empresário se dirige? A seus quase 13 milhões de seguidores? Aos pouco mais de 4 mil que retuitaram seu desabafo? Ou aos quase 20 mil que se arriscaram a comentar o post que teve quase 50 mil curtidas?

Tanta exposição assim, é claro, rendeu pitacos das vozes autorizadas pela Imprensa. Mas dessa repercussão eu trato na segunda parte deste ensaio; até lá!

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2 comentários
Tartaruga Nara

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