Benedito: imagens e metáforas no livro ilustrado

por:

Na coluna desta semana, Josias Marinho conta sobre o processo de criação do livro Benedito – obra selecionada pelo Clube de Leitores A Taba para os assinantes bebês em novembro de 2020.

Era uma manhã de domingo em Belo Horizonte, MG, e eu estava desde o dia anterior me preparando para acompanhar, pela primeira vez, o Festejo do Tambor Mineiro. Evento potente em benefício da cultura afro-mineira, tendo o multiartista Maurício Tizumba como cicerone e o principal propositor do movimento que já fazia parte da agenda anual de BH.

O evento tomava toda uma rua do bairro Prado, onde se situava a sede do Tambor Mineiro (trupe de artistas negros e negras, também, sob a orientação e criação de Tizumba). Lá estava eu andando no meio de tanta gente para esperar o cortejo das guardas de Congo e Moçambique que ali chegariam.

De repente, meus ouvidos e coração começaram a acompanhar as batidas dos tambores, apitos e vozes cantando rezas e ladainhas pedindo passagem. Pedindo licença para chegar.

Foi assim que vi e ouvi passar na minha frente grupos dançantes com homens, mulheres e crianças em sua maioria de negros e negras. Passavam alegres, atentos, sincronizados, trajados com cores e adornos cheios de simbologia.

Em meio a tanta energia foi quando eu vi a chegada de uma rainha Conga. Fui tomado de uma emoção sem tamanho, inexplicável. Uma senhora com a pele bem escura como a minha, mas com rugas bem marcadas no rosto e nas mãos. E a idade não parecia impedimento para a energia dela. Ela seguia firme, coroada, sorridente, acompanhada por outros reis e rainhas.

Eu fiquei ali pensando naquilo tudo e minha memória foi para um passado onde meus ancestrais lutaram, morreram, foram mortos e sobreviveram para que eu estivesse naquele local.

Minha reação foi me sentar no meio-fio e chorar incontrolavelmente.
Não era tristeza. Era uma sensação única que envolvia amor, saudade, fortalecimento e agradecimento.

Ali nascia Benedito (Caramelo, 2014). Mesmo que a ideia, os rabiscos e a possibilidade de uma publicação só viessem posteriormente.

Depois desse dia eu me aproximei mais do congado. Busquei leituras e, principalmente, vivenciar tudo aquilo que me tomou de emoção. Passei a ter conhecimento da agenda anual da Irmandade Os Ciriacos, passando a frequentar suas festas. Fui muito bem recebido e acolhido, inclusive.

Essa Irmandade é fruto do trabalho iniciado pelo Capitão Joaquim Anselmo no lugar chamado Água Funda – hoje Bairro Nacional, nesta cidade. O primeiro toque sob minha direção da Irmandade foi no dia 3 (três) de maio de mil novecentos e cinquenta e quatro, e nesta época o Antônio Jorge Muniz, meu filho, foi fardado Capitão, ele tem muito tempo de Congado.

(Ata da Assembleia de Constituição da Irmandade de N. Senhora do Rosário – Os Ciriacos, com a fala do Capitão-mor Ciriaco Celestino Muniz. 03 de maio de 1993. Apud JÚNIOR e DELLAMORE, 2015. P. 16)

Benedito, o livro, tem esse nome em homenagem à São Benedito, um dos santos pretos celebrados pelo congado. O livro busca oferecer ao leitor metáforas sobre as relações interpessoais dentro das irmandades do rosário. A discussão de herança, do aprendizado com os mais velhos vai ao encontro da ancestralidade e, também, sobre a manutenção daquele saber, da cultura negra.

Propositalmente, eu escolhi como referências textuais para esse relato duas publicações que buscam registrar a história de duas irmandades da grande Belo Horizonte: Os Ciriacos e os Arturos.

A Comunidade (dos Arturos) é fruto da união de Arthur Camilo e Carmelinda Silva, descendentes de negros africanos escravizados, que viviam e trabalhavam, no início do século XX, na região dos atuais municípios de Contagem/MG e Esmeraldas/MG.

(IEPHAMG, p 17)

O tambor e o gesto do mais velho ao oferecer a gunga e a indumentária ao Benedito, para mim estão no campo da metáfora sobre a ascendência e sobre o sagrado (o que não são coisas separadas nos valores afro-civilizatórios).

Claro que o tambor representa Santana, Santaninha e Jeremias. Os tambores sagrados do Candomblé e responsáveis pela retirada da imagem de Nossa Senhora do Rosário das águas onde ela se embalava. Uma história linda que envolve a explicação das diferenças entre as guardas de Moçambique e de Congo.

Nos cortejos, o Moçambique caminha após o Congo, com ritmo e canto lento e pausado, acompanhado por uma dança vertical, rememorando o sofrimento dos seus ancestrais africanos. Os Moçambiques são conhecidos como os ‘donos da Coroa’, os responsáveis pela condução e proteção do Trono Coroado. A Guarda é composta, essencialmente, pelos homens mais velhos da comunidade. Embora, também, possua mulheres e membros de outras idades.

(IEPHAMG, p. 25)

A agilidade, a pressa do Benedito em conhecer aqueles instrumentos busca um diálogo com o arquétipo do Congo. Na história eles vão na frente, são jovens e apressados, e tentam retirar a imagem das águas. Ela que responde com alegria, mas retorna para o balanço das ondas.

Na Comunidade dos Arturos a Guarda de Congo foi formada no final dos anos 1950. É composta por homens e mulheres de várias idades. A guarda apresenta ocupações como a do Capitão-mor, Capitão-guia, entre outros. O Rei e a Rainha Conga são as principais referências religiosas, a representação do reino das nações africanas e é a sua presença que constitui o Reinado dos Arturos. Com essa estrutura, a Guarda de Congo segue limpando o percurso e enfrentando os males. Anuncia, também, com suas alegorias, fitas, brilhos e cores, o Trono Coroado.

(IEPHAMG, p. 23)

Nas ilustrações de Benedito procurei um deslocamento das funções do brincar para construir proposições visuais que pudessem oferecer ao leitor a discussão do enegrecer-se a partir do contato com valores e narrativas da cultura negra.

Entendo que essas possibilidades de entendimento são elásticas (e têm de ser), mas meu foco foi no simbólico sagrado do congado. E, a partir dele, certamente, vários outros aspectos podem ser discutidos com a fruição da própria publicação como um todo e, também, considerando o que a sociedade nos oferece como discursos construtores de identidades e a representação, principalmente, do corpo negro.

Na década de 1980, Antonio Muniz, responsável pela Guarda de Moçambique, percebeu a necessidade de abrir as portas para a participação das mulheres, pois elas já faziam parte do cotidiano do grupo. As esposas acompanhavam seus maridos nos festejos, as mães acompanhavam seus filhos, as filhas acompanhavam seus pais; além de se dedicarem aos afazeres da cozinha e da limpeza, elas tinham fé e uma devoção muito grande à Nossa Senhora do Rosário. […] A princípio, algumas mulheres começaram a participar como dançantes da Guarda de Moçambique […] logo depois, foi criada uma guarda feminina, a Guarda de Congo dos Ciriacos. […] O Congo passou a abrigar todas as mulheres que desejavam fazer parte do Reinado. Era Efigênia, como capitã que comandava e organizava a guarda, escolhia seus caixeiros e dançantes. Muito respeitada na Irmandade, ela passou a ser a maior referência feminina dos Ciriacos.

(JÚNIOR e DELLAMORE, 2015. p. 26)

Assim sendo, Benedito abre espaço, paralelamente, para o debate sobre a indumentária e o corpo humano cultural (no sentido de seguir orientações e construções sociais que perpassam por costumes, representação de poder, eventos, entre outros, que podem ser característicos de uma comunidade, de um povo e que estão além de uma categorização única. Estou falando de roupas e gêneros).

Nesse ínterim, um livro de imagens oferece ao fruidor/leitor uma narrativa passível para construções coletivas. Penso que essa possibilidade seja um potencial no debate sobre mediação de leituras.

Enfim, para não falar de todos os detalhes e influenciar tanto a fruição de Benedito, retomo um pouco a discussão sobre o meu processo criativo. Para mim, a produção a partir de uma pesquisa sem envolvimento físico, visceral, é muito científica. Não que eu queira comparar uma produção artística e uma científica para nivelar os resultados dos produtos gráficos.

Mas tomo essa dualidade para falar que minhas produções
que julgo mais potentes partiram do afeto.

A emoção é que me movimenta no mundo. Então, Benedito apresenta as soluções gráficas que buscam construir metáforas para discutirmos sobre o corpo negro, principalmente, em todas as suas dimensões como protagonista de história e estórias.

– – – – – – – – –

Referências

  • INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE MINAS GERAIS. Comunidade dos Arturos. Belo Horizonte: IEPHAMG, 2014. Cadernos do Patrimônio; v. 2.
  • JÚNIOR, Adebal de Andrade. DELLAMORE, Carolina (Org.). A voz dos tambores: uma história dos Ciriacos. Contagem: Irmandade do Rosário Os Ciriacos, 2015.

deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tartaruga Nara

acompanhe a gente!

receba as novidades da Taba em primeira mão: