A POÉTICA DO ESPACO LITERARIO

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De los diversos instrumentos del hombre, el más asombroso es, sin duda, el libro. Los demás son extensiones de su cuerpo. El microscopio, el telescopio, son extensiones de su vista; el teléfono es extensión de la voz; luego tenemos el arado y la espada, extensiones de su brazo. Pero el libro es otra cosa: el libro es una extensión de la memoria y de la imaginación.

Jorge Luis Borges

Já faz um tempo que vivemos com o queixo no peito, o nariz na tela e as mãos cada vez mais rápidas nesse tricô tecnológico que nos rouba o tempo do quimérico.

Vivemos em pulsação midiática e veloz, ansiosos por dois tracinhos azuis, entrelaçando redes sociais e alinhavando discursos impulsivos em palavras abreviadas. Os olhares pouco buscam horizontes ensimesmados em likes e atualizações. Corpo concha, porém impedido de se refugiar no profundo de si mesmo.

Como então enfrentar a incessante condição humana de construir significados sem tempo/espaço para os próprios devaneios? Como crianças e jovens tomam as rédeas dessa peregrinação mágica, sedutora e caleidoscópica da virtualidade?

Sirvo-me delicadamente de Gaston Bachelard, “Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo.” Não se nasce leitor, é necessário lapidação de ourives. Nosso imaginário (e corpo) necessita de possibilidade de aconchego e invenção. Diante da avalanche de informações e estímulos, a arte literária oferece coordenadas simbólicas que validam nossa subjetividade e confortam a existência. 

Forma-se um leitor acomodando seus devaneios. É nobre (e urgente) construir espaços de leitura para crianças e jovens. São nesses ninhos que robustas asas são esculpidas. A cada inquietação literária há um movimento de corpo. O músculo tensiona ou se aquieta. O pulmão exige ar, o coração acelera. As mãos tateiam o papel. O olhar acompanha a cabeça e se oferece ao devaneio.

O filósofo francês Roland Barthes indagava: “Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de ideias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler e levantar a cabeça?”  

Ambientes (intencionalmente) literários atestam valor inestimável ao projeto político pedagógico de escolas, catalisam e ampliam conversas familiares, aproximam a cidade, constroem cidadania. Um canto, uma rede, uma luminária, uma estante pontuam relevância e escancaram a necessidade humana de fabulação.

Como no fazer arquitetônico, que o projeto antecede a construção, o fazer poético pressupõe a criação de espaços que favoreçam um comportamento leitor. Livros espelhados em estantes, iluminados, acessíveis e valorizados estimulam o imaginário, despertam curiosidades e inquietações, contribuindo para que as pessoas construam interações humanas.

Cada texto ou ilustração vasculhado de forma reflexiva estende pontes ao leitor, desenvolve capacidade crítica, tanto para conhecer e compreender culturas diversas quanto para perceber seu universo interior. E então, com repertório, autonomia e um discurso competente, nossos jovens poderão, sim, desfrutar dos múltiplos benefícios dos tempos digitais com maturidade e discernimento.

Que os espaços de leitura sejam pensados em suas entrelinhas! Que façamos valer a poética de Borges estendendo nossa insustentável existência humana à arte literária. 

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3 comentários
  • Que texto maravilhoso!
    Como fico feliz por conhecer A Taba!
    Quanto contudo bom de se ler!
    Formar leitores apaixonados, essa tem sido a minha vida!

  • Tartaruga Nara

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