A ‘utilidade’ da literatura infantil

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A ‘utilidade’ da literatura infantil

As crianças estão deixando o celular de lado para dar uma chance à literatura infantil? Essa foi a conclusão de um texto publicado recentemente na Folhinha. As crianças entrevistadas já têm o hábito da leitura consolidado e o incentivo veio de casa. 

A reportagem relembra um sucesso da década de 1970, que tinha como objetivo aproximar as crianças da literatura infantil: a coleção “Para Gostar de Ler”. Crônicas, contos e poemas marcaram gerações e fazem parte da memória afetiva de muitos até hoje. 

Que literatura é essa capaz de tirar um nativo digital do celular? Há quem acredite que a literatura infantil é aquela que ensina algo às crianças, com exemplos didáticos de como se comportar bem, por exemplo. Há os que a enxergam como parte do material escolar, para trabalhar os mais diversos temas com os estudantes.

Aqui na A Taba, acreditamos que a literatura infantil é sobretudo Literatura, como uma forma de Arte. Não ensina nada a ninguém, mas oferece uma experiência artística ao alcance dos pequenos leitores. 

Para que serve a literatura infantil?

Se não serve para ensinar ou para ser utilizada de forma didática nas escolas, resta saber a finalidade da literatura infantil.

Teresa Colomer, uma das mais conhecidas especialistas em literatura infantil resume em seu livro “Introdução à Literatura Infantil e Juvenil Atual”, publicado pela Editora Global, a ‘utilidade’ da literatura infantil:

  • Iniciar o acesso ao imaginário coletivo de uma sociedade;
  • Desenvolver o domínio da linguagem e das formas literárias;
  • Oferecer uma representação articulada do mundo que sirva como instrumento de socialização das novas gerações.

O acesso ao imaginário coletivo

Como afirma Teresa Colomer, uma das funções da literatura infantil é a de abrir a porta a um imaginário humano, registrado na literatura de cada povo. O termo “imaginário” se refere ao imenso repertório de imagens, símbolos e mitos que nós utilizamos para entender o mundo e as relações com os outros. 

O folclore de todos os povos traz suas representações, que são chamadas de arquétipos. Por isso, muitas vezes encontramos versões de histórias semelhantes em povos bem diferentes. 

Como explica Colomer: “esta condição universal permitiria compreender que a literatura de todos os tempos e lugares utilize imagens e temas recorrentes, já que surgiriam das complexas simbologias dos arquétipos”. 

Dessa forma, os registros de todas as manifestações de um povo são o retrato de sua cultura, do que se considera adequado e inadequado, belo ou feio, da forma como se vive e no que se acredita. Tão importante quanto conhecer nossa própria cultura é conhecer a de outros povos.  

  • Quem é essa mulher? – perguntou o grão-vizir com viva curiosidade.
  • Ela disse que se chama Verdade, senhor. – respondeu o guarda.

O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:

  • O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.

trecho do conto árabe Uma fábula sobre a fábula, do livro “O violino cigano e outros contos de mulheres sábias”, de Regina Machado (editora Companhia das Letras)

Aprendizagem da linguagem e das formas literárias

Outra função da literatura para crianças é contribuir para que elas conheçam e dominem a linguagem e as formas literárias básicas. Ao longo do percurso de formação leitora, as crianças vão ampliando seu repertório e dominando textos cada vez mais complexos. 

Por isso é importante o contato com a literatura infantil desde cedo. As chances de uma criança se consolidar como leitora quando adulta é maior se tiver contato com os livros na infância

Achava que os passarinhos 

são pessoas mais importantes 

do que aviões.

Porque os passarinhos

vêm dos inícios do mundo.

E os aviões são acessórios.

poema do livro “Cantigas por um passarinho à toa”, de Manoel de Barros e Kammal João (editora Companhia das Letrinhas)

Socialização cultural

“Foi precisamente o propósito de educar socialmente que marcou o nascimento dos livros dirigidos à infância”, afirma Teresa Colomer em seu livro. Segundo a pesquisadora, eles foram perdendo a carga didática ao longo dos tempos em favor de sua vertente literária e seguem proporcionando saber como o mundo ou o se que deseja que fosse.

“Por isso se fala da literatura infantil e juvenil como se fosse uma atividade educativa como também o são, principalmente, a família e a escola. Neste sentido, não há melhor documento que a literatura infantil para saber a forma como a sociedade deseja ver-se a si mesma”, destaca Colomer.

Nesse sentido, porque não oferecer às crianças uma literatura infantil que reflita o que esperamos da sociedade? 

O que temos em nossa literatura que representa variados modelos de família? 

Qual a cor da pele da maioria dos personagens que habitam os livros que oferecemos às crianças? 

Quem são os autores destas obras? Quais suas origens? 

Os finais são sempre felizes? E na nossa vida, temos sempre finais felizes? 

Por que eu não podia ser igual a uma princesa?

Ela repetiu “minha filha, você é uma princesa”. Mas riu bastante, Minha neta, que tipo de princesa você quer ser?

Hã? Como assim “que tipo de princesa”?

Minha avozinha riu mais ainda, como sabiá na laranjeira.

trecho do livro “Uma princesa nada boba”, de Luiz Antonio e Biel Carpenter (editora Cosac Naify).

A literatura infantil nos proporciona a possibilidade de fazer muitas perguntas. Respostas, nem sempre haverão. Mas com uma conversa podemos chegar – junto com as crianças – em muitas possibilidades.

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Tartaruga Nara

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