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Contos tradicionais africanos: 15 obras para se aproximar dessas narrativas

“O conto vem carregado de mitos, valores, religiosidade, ideias ligadas à nossa produção, modos de vida, metodologias de ensino, tudo está presente no conto. Nós não tivemos academia, ou melhor, não tivemos um espaço, naquele critério grego, de irmos sentar em um lugar para aprender. Tivemos aquele momento em torno de uma árvore, em torno de uma fogueira, ou, na verdade, em torno de um Njango — lugar de sabedoria.”

Este depoimento é de Abdu Ferraz, angolano que vive no Brasil e preside a LAEA, a Liga dos Amigos e Estudantes Africanos. Com a missão de cultivar tradições do continente em solo brasileiro, viveu na pele uma infância de encontros no entorno de árvores e fogueiras. 

Em entrevista à PUC-SP, conta do significado desses encontros, que acontecem em várias partes não só da Angola, mas de toda a África. No caso de sua vivência, lembra de um sentimento de “pertencimento à comunidade”, em que as crianças chamavam os idosos de “avós”, independente de seus laços familiares. Todos tornavam-se avós e netos, em um mesmo grupo.

No Brasil, com a diáspora africana provocada pelo tráfico negreiro, muito do que chegou das culturas da África foi reprimido ou se encontra incorporado à nossa brasileira de outras maneiras. Como forma de reconhecer essa influência, foi sancionada em 2003 a Lei 10.639, que prevê a inclusão no currículo escolar do ensino da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional.

O filme Kiriku e a feiticeira traz a lenda da criança-prodígio que salvou sua aldeia

Os contadores de histórias

Uma figura que ficou mais conhecida em território brasileiro foi a do griô, o contador de histórias da região da África Ocidental. Há registros dos chamados “artesãos da palavra”, como explica Celso Sisto em Do griô ao vovô: o contador de histórias tradicional africano e suas representações na literatura infantil, desde o século XIV, no antigo Império Mali.

A função social dos griôs, no entanto, vai além da pessoa que narra: quem detém a habilidade com a palavra é também conselheiro, mediador de conflitos, tradutor, cantor, transmissor de notícias e condutor de cerimônias como casamentos, tomadas de posse e funerais.

Essa pessoa é responsável por preservar e transmitir a memória de um povo. Como disse o etnólogo e filósofo malinês Amadou Hampâté Bâ, “na África, cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima”.

Mas não é só da figura do griô que são feitos os rituais de contar histórias no continente africano. No livro Sona — Contos africanos desenhados na areia, escrito por Rogério Andrade Barbosa, ilustrado por Thais Linhares e publicado pela Editora do Brasil, por exemplo, tomamos conhecimento da forma de narrar de um povo que vive na Angola: os quiocos, que enquanto contam histórias, fazem desenhos na areia. E esse é apenas uma das tantas formas de contar histórias e transmitir a memória.

Capa de Sona — Contos africanos desenhados na areia

Contos africanos que ajudam a formar uma comunidade

A tradição oral africana também não se limita a narrativas míticas e históricas, como o próprio Hampâté lembra: é “a grande escola da vida, cobrindo e envolvendo todos os aspectos”. É ao mesmo tempo religião, conhecimento, ciência da natureza, iniciação à profissão, história, divertimento e recreação.

Ela permite uma transmissão que vai além das ideias: é uma transferência de experiência em “palavras comunitárias”, no qual “o vivido se reflete nas palavras e no qual estas, uma vez proferidas, repercutem, por sua vez, no vivido”. São o que a etnóloga francesa G. Calame Griaule chamou de “espelhos falantes” da vida de um povo. Por isso, os contos tradicionais são uma ótima forma de conhecer um pouco mais sobre uma outra cultura. 

Conheça alguns livros que trazem contos tradicionais de povos africanos:

Autor Ataba

Luísa Cortés Apaixonada por histórias desde criança, não deu outra: foi estudar Letras e Jornalismo para contar as suas próprias. Hoje, edita o blog da Taba, numa missão de contaminar cada vez mais pessoas com o vírus da leitura.

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