Oralidade na literatura infantil: a tradição de contar histórias

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Noite fria, fogueira acesa, histórias a se perder de vista: da famosa Chapeuzinho Vermelho, da bela Branca de Neve ou então do astuto Gato de Botas. Muitas eram as narrativas que se contava para espantar os monstros internos desde os mais remotos tempos. Eram histórias que povoavam o imaginário de todos, antes de serem classificadas como “infantis”. Em um tempo com baixíssima circulação de livros, a transmissão era exclusivamente pela oralidade.

Aliás, muito do que conhecemos hoje como literatura, escrita e registrada no papel impresso, antes eram transmitida de geração em geração. Dos contos de fadas, as narrativas tradicionais europeias,  temos muitos exemplos, mas não apenas deles: há contos populares onde houver povo, e há muito o que se descobrir no rico acervo popular a se oferecer às crianças.

A famosa poeta Cecília Meireles já lembrava que “não se pode pensar uma infância a começar logo com gramática e retórica: narrativas orais cercam a criança da Antiguidade, como as de hoje.” Ela não foi a única: Bruno Bettelheim, autor do importante livro Psicanálise dos contos de fadas, defendia que esse tipo de história deveria ser “contada em vez de lida”,  e a crítica literária Nelly Novaes Coelho destaca o papel libertário e orientador da escola nesse sentido, para “permitir o ser em formação chegar ao seu autoconhecimento e a ter acesso ao mundo da cultura que caracteriza a sociedade que ele pertence”.

Afinal, contar histórias é a celebração de uma uma tradição milenar, mais antiga do que possamos documentar, e certamente anterior à existência de livros. Mas o que há de tão diferente entre ler e contar histórias? Responde essa pergunta Denise Guilherme, formadora de educadores e idealizadora da Taba. Não há um ato que seja melhor, ou mais benéfico para as crianças, que outro, mas há diferentes intenções.

Na leitura de um livro, contemplamos aquele objeto, seu texto e ilustrações. Conhecemos a autoria, a editora. Seguimos a história tal qual ela foi fixada e, assim, a criança conhece de onde aquela história vem e a forma exata na qual ela foi escrita. Já na narração de histórias, vivenciamos uma experiência diferente, em que há espaço para a improvisação, o uso de elementos da linguagem oral, o contato visual. É a arte do encontro, em que agregamos outros elementos à narrativa. 

A contadora de histórias Marina Bastos expressa a diferença entre a escrita e a oralidade de outra forma:

“Contar histórias é brincar com as palavras, com a melodia, com os gestos, com o encontro. É cozinhar o texto escrito como se fosse um bolo de vó: respeitar a receita, incluir temperos próprios, aquecer o fogo, escolher a melhor panela, untar a forma para receber o doce, mexer até ficar macio. Depois, guardar a receita na gaveta, mexer pro outro lado, improvisar, deixar crocante e servir para o público, saboreando cada frase.”

Isso porque, quando contamos ou ouvimos uma história através da oralidade, olhamos nos olhos do outro, ouvimos a voz e as suas nuances, “percebemos que não estamos sozinhos, que somos parte de um todo e de uma história muito maior”, lembra Marina. “É a história do mundo e da humanidade”. Isso porque participar dessa experiência nos atravessa, e nos tornamos um pouco co-autores dela. É aquele adereço que se traz ao encontro, aquela voz que se cria para determinado personagem, aquela entonação que gera olhares curiosos em quem ouve atentamente. Tudo isso torna a história também nossa. 

E a literatura para a infância está repleta de versos, cantigas, parlendas, poemas e contos cheios de oralidade que podem proporcionar esses encontros entre adultos e crianças. Nesse sentido, faz valer aquele velho ditado de que “quem conta um conto acrescenta um ponto”, com obras que estão em constante mudança e releitura, com novas plateias e diferentes tempos. 

“Quem conta um conto constrói a narrativa no momento do encontro”, segundo ainda a contadora de histórias; para ela, além de estudar as narrativas que se quer contar, é imprescindível entrar no jogo da brincadeira, o jogo de uma plateia das mais revolucionárias: as crianças. É preciso entregar-se ao momento presente, estar disponível e aberto ao encontro. Afinal, como bem lembra, “é no espaço entre quem conta e quem ouve que a mágica acontece.”

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