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As histórias de “Histórias da Preta”

Uma menina que passeia pelo imaginário do continente africano, que conhece a dura história do tráfico negreiro, mas que também tem contato com os mitos africanos, com os griôs, tradicionais contadores de histórias, com o candomblé. Assim é Histórias da Preta, obra escrita por Heloisa Pires Lima e ilustrada por Laurabeatriz.

O livro foi publicado pela Companhia das Letrinhas em 1998, época em que eram poucas as obras para crianças com representatividade negra, em especial escritas por uma autora negra. Para a escritora Kiusam de Oliveira, “traz a cultura africana e afro-brasileira de uma forma extremamente verdadeira, de dentro, honrosa e respeitosa”.

Já o poeta e professor Edimilson de Almeida Pereira considera a obra “um livro que nos ensina a navegar pelas águas da memória – nós, pessoas do presente que só faremos um futuro melhor se conhecermos melhor o nosso passado”. Para ele, o título é “um ponto num bordado amplo e variado que ela [Heloisa Pires Lima] vem elaborando há vários anos”.  Bordado este que inclui outras obras de sua autoria, como A semente que veio da África (editora Salamandra), O comedor de nuvens (editora Paulinas) e O coração do baobá (editora Amarilys).

E Heloisa Pires Lima tem uma vasta atuação na literatura afro-brasileira. Com formação em antropologia, já atuou como editora (entre 1999 e 2000 foi responsável pelo Selo Negro Edições, do Grupo Summus Editorial), é pesquisadora e atua como consultora em ONGs e na esfera privada.

Junto ao texto de Heloisa, as ilustrações de Laurabeatriz também são bastante significativas. Jovens tocando tambor, mulheres e homens jogando capoeira: a formadora Bel Santos Mayer, que atua na promoção de bibliotecas comunitárias, se lembra até hoje de quando viu aquelas figuras pela primeira vez.

Na época, trabalhava em Centros de Defesa de Crianças e Adolescentes. “Tudo aquilo dialogava muito com o que nós víamos nas áreas mais extremas das cidades, como a que estávamos, nos Cedecas. Então queria contar essa pequena história com o Histórias da Preta.” Ela conta que, quando o livro foi lançado, logo quis garantir o seu. E, pouco tempo depois, comprou outro, tamanho o receio de ficar sem a obra. Até hoje tem dois exemplares.

É, por fim, um livro que celebra a memória do Brasil, daqueles que tanto contribuíram com a formação deste país e que continua a gerar memórias afetivas. “Indispensáveis ao acervo de qualquer um que se dispõe a refletir sobre a literatura para a infância e os impactos que ela nos causa, bem como as marcas que nos deixa”, como diz o professor Hélder Guastti, criador do Espaço de Leitura Confabulando.

Josias Marinho concorda. Para ele, Preta é um exemplo de respiro. Respiro no sentido de estar vivo e, também, no sentido de alívio. Penso que Histórias da Preta discute o afeto e o afetar-se para tomarmos fôlego para erguer a cabeça e estufar o peito com o coração cheio de lembranças, valores e o pulsar da energia dos que vieram antes de nós.”

Pedimos que algumas pessoas nos enviassem suas histórias com o Histórias da Preta. Abaixo, você confere os depoimentos completos sobre esse livro que marcou gerações. 

Também tem algo a dizer sobre a obra? Envie para nós pelas redes sociais ou deixe seu comentário ao fim deste texto! Vamos adorar conhecer a sua relação com a Preta e suas histórias fantásticas.

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Josias Marinho, artista visual, autor de Benedito

Heloisa Pires Lima, uma querida, sempre nos apresentando livros potentes. E com Histórias da Preta não é diferente. O livro, ao apresentar uma mulher negra como narradora dos seus e de si mesma, já é muito significante no sentido de contribuir com a discussão sobre o protagonismo negro. De sermos capazes de produzir conhecimento, de sermos capazes de construir arte em todos os sentidos, de sermos capazes de falar sobre nós mesmos e com isso construir uma reflexão. Preta é um exemplo de respiro. Respiro no sentido de estar vivo e, também, no sentido de alívio. Penso que Histórias da Preta discute o afeto e o afetar-se para tomarmos fôlego para erguer a cabeça e estufar o peito com o coração cheio de lembranças, valores e o pulsar da energia dos que vieram antes de nós.

Edimilson de Almeida Pereira, poeta, ensaísta, professor e pesquisador da cultura a da religiosidade afro-brasileira. Autor de Poemas para ler com palmas

Gosto de pensar esse livro de Heloisa Pires Lima como um ponto num bordado amplo e variado que ela vem elaborando há vários anos. Esse bordado inclui livros como A semente que veio da África, O comedor de nuvens, O coração do baobá, dentre outros publicados pela autora. Em todos eles, há tanto sobre a resistência e a beleza que as populações negras construíram em África e na diáspora, apesar das agressões que lhes atingiram o corpo e o pensamento. A memória é o grande canal por onde podemos navegar para chegarmos a esse universo. E me parece ser isso o que faz Heloísa em Histórias da Preta: ela nos ensina a navegar pelas águas da memória – nós, pessoas do presente que só faremos um futuro melhor se conhecermos melhor o nosso passado. 

Bel Santos Mayer, gestora da rede LiteraSampa, apoiadora de bibliotecas comunitárias e docente da pós-graduação Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica, do Instituto Vera Cruz

A minha história com o livro Histórias da Preta, da Heloisa Pires Lima, é até engraçada. Quando eu vi o lançamento desse livro, em 1998, só pelo nome já me atraiu, porque era um período em que ainda faltavam muitos livros pensados em crianças e adolescentes trazendo a diversidade do continente africano, então quando eu vi o nome, que era da Heloisa Pires Lima, eu fui e comprei. E pouco tempo depois eu comprei de novo, tamanho era o  receio de ficar sem o livro. E nessa época, eu trabalhava como formadora de um centro de defesa de crianças e adolescentes, e eu lembro de apresentar o livro para os educadores e as educadoras, trazendo como novos referenciais para se trabalhar com jovens que eram egressos do sistema de privação de liberdade, jovens em liberdade assistida, e trazia também essa questão das imagens. As imagens da Laurabeatriz com jovens tocando tambor, as imagens de mulheres e homens jogando capoeira. Então tudo aquilo dialogava muito com o que nós víamos nas áreas mais extremas das cidades, como a que estávamos, no Cedecas. Então queria contar essa pequena história com o Histórias da Preta. E até hoje eu tenho dois exemplares.

Kiusam de Oliveira, professora e autora de O mundo no Black Power de Tayó

Falar sobre Histórias da Preta para mim é algo muito fácil. Primeiro porque eu sou uma pessoa apaixonada, eu amo a minha amiga Heloisa Pires Lima, autora deste livro. E segundo porque este livro revolucionou a minha vida como professora assim que ele foi lançado, na década de 1990. Eu fiquei impressionada, porque é um livro que tinha representatividade, porque sim, representatividade importa e importa muito. Esse livro continha as imagens de uma menina, uma jovem negra linda e maravilhosa e o que mais me encantou é que a última parte dele, para além de todas as imagens maravilhosas sobre África, a última parte trazia informações sobre o candomblé, com imagens belíssimas e o envolvimento de uma menina conhecendo essa cultura, essa filosofia, essa forma de vida que é ser e estar no candomblé. Então para mim, esse livro representa tudo o que de mais lindo, mais altruísta, pessoas negras são capazes de ter, de ver e de viver, porque traz a cultura africana e afro-brasileira de uma forma extremamente verdadeira, de dentro, honrosa e respeitosa. Portanto, sim: representatividade importa, e Heloisa Pires Lima merece todas as homenagens do campo da literatura brasileira porque o livro dela revolucionou uma geração completa.

Hélder Guastti, professor, produtor de conteúdo e criador do Espaço de Leitura Confabulando

Sabe aquele clássico que nos ORGULHA e enche de EMOÇÃO por sabermos que faz parte do acervo básico das escolas municipais? Este é meu caso de amor de longa data [e eterno!] com Histórias da Preta. Sempre namorava o da escola, lia, relia, pegava emprestado, indicava às crianças, mas ainda não tinha o meu… Hoje acertei isso por definitivo e adquiri um exemplar aqui para o Espaço [de Leitura Confabulando] [especialmente porque pensei no da escola lá parado, sem circular, sem alcançar os leitores…]. É muito difícil para mim conseguir dimensionar a importância deste livro. Em todos os aspectos.

A maneira com que Heloisa nos conduz durante suas reflexões narrativas é surreal, algo que considero inexplicável. Vocês precisam adquirir, ler, refletir, oportunizar o diálogo e a reflexão com as crianças… Sei que muitos acham que não devemos taxar alguns “livros essenciais”, mas, a meu ver, este é um daqueles indispensáveis ao acervo de qualquer um que se dispõe a refletir sobre a literatura para a infância e os impactos que ela nos causa, bem como as marcas que nos deixa.
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Histórias da Preta é um livro muito querido, daqueles que me oportunizaram muitas memórias afetivas. Lê-lo, para mim, é valorizar a história daqueles que contribuíram e seguem contribuindo com a formação de meu país, com aqueles que foram e ainda são previamente julgados… é insistir, persistir e, acima de tudo, resistir às histórias que nos são postas. A escrita e todo o trabalho de Heloisa é de uma potência única. Singular. Um trabalho de resistência.

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Autor Ataba

Luísa Cortés Apaixonada por histórias desde criança, não deu outra: foi estudar Letras e Jornalismo para contar as suas próprias. Hoje, edita o blog da Taba, numa missão de contaminar cada vez mais pessoas com o vírus da leitura.

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